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quinta-feira, 17 de abril de 2008

MST critica lentidão da Reforma Agrária

Desde a última segunda-feira (14 de abril), o MST vem realizando protestos contra a lentidão da Reforma Agrária, exigir o assentamento das 150 mil famílias acampadas no país e cobrar investimentos públicos em assentamentos. Com esse objetivo, ocupou latifúndios em Pernambuco, Rio Grande do Sul e Alagoas, mas também aconteceram atos e manifestações em Bahia, São Paulo, Roraima e Pará.
Segundo o MST, a Reforma Agrária está emperrada no país por causa da política econômica, que beneficia as empresas do agronegócio, concentra terras e verbas públicas para a produção de monocultura para exportação. "O governo precisa apoiar a pequena e média produção agrícola para fortalecer o mercado interno, garantir a produção de alimentos para a população e a preservação do meio-ambiente", afirma José Batista de Oliveira, da coordenação nacional do MST
O governo federal prometeu liberar crédito para a construção de 31mil habitações rurais em 2007. Foram contratadas apenas 2 mil, enquanto há demanda para 100 mil casas no meio rural. O MST cobra a criação de uma linha de crédito específica para a produção agrícola em assentamentos. As famílias assentadas têm dificuldades para acessar o Pronaf (ProgramaNacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar), que não considera as especificidades das áreas de Reforma Agrária.
É incrível que 24 anos após a ditadura militar que foi deflagrada devido ao discurso do então presidente da República João Goulart, a Reforma Agrária seja tratada como tabu neste País.
O MST é a voz tronitoante que impede que se esqueça a questão da terra. Pena que a grande imprensa tente criminalizar o movimento.

IURV persegue terreiros e homossexuais

Recebi a denúncia abaixo e a reproduzo tendo em vista a gravidade dos acontecimentos. O Brasil sempre foi conhecido pela convivência pacífica entre as religiões, mas a atuação da IURV pode mudar esse cenário:

Os acontecimentos de ontem (15-04-08) na Alerj, por ocasião da Audiência Pública que deveria ter contado com a presença de autoridades como o Secretário de Segurança, José Mariano Beltrame e o Procurador Geral da Justiça (Ministério Público), Marfan Vieira, são o resultado da sabotagem promovida pela Igreja Universal.
Vamos a um resumo, passo a passo:
1 - No dia seguinte após as publicações do jornal Extra denunciando as perseguições dos traficantes aos terreiros, o deputado Átila Nunes pede IMEDIATAMENTE ( dia 18 de abril) a convocação de audiência pública à Comissão do Combate à Discriminação da Assembléia Legislativa;
2 - A presidente da Comissão do Combate á Discriminação da Alerj é uma deputada eleita pela igreja Universal (Beatriz Santos);
3 - A deputada tenta então, de todos os modos, evitar a convocação da audiência pública convocada pelo nosso irmão Átila;
4 - Pressionada pelos terreiros e entidades dos cultos afro-brasileiros, a deputada da Igreja Universal convoca apenas um simples bate-papo dos membros da Comissão de Combate à Discriminação - E NÃO UMA AUDIÊNCIA PÚBLICA COM AUTORIDADES, conforme havia sido solicitado;
5 - Interpelada nessa reunião por Átila Nunes que denunciou que ela não queria realizar a audiência pública porque era da Igreja Universal, a deputada recebeu críticas de todos os demais deputados e lideranças umbandistas e candomblecistas, o que fez com que o deputado Jorge Picciani, presidente da Alerj, interviesse e exigisse que ela convocasse a audiência com a presença das autoridades;
6 - A audiência pública foi 'empurrada com a barriga' pela deputada da Igreja Universal para o dia 14 de abril (quase um mes depois), ficando ela, a deputada, encarregada de convocar as autoridades;
7 - Preocupados com uma possível demora na realização da audiência pública (o que de fato aconteceu), o deputado Átila Nunes e o vereador Átila Nunes Neto, entregam um dossiê ao Secretário de Segurança José Mariano Beltrame, o Chefe do Estado Maior da Polícia Militar, Coronel David e o Subsecretário de Polícia Civil, Ricardo Martins, em reunião ocorrida no gabinete do secretário;
8 - Finalmente chegou o dia da audiência pública sob a presidência da deputada da Igreja Universal. Todos estranharam a ausência das autoridades, com destaque especial para a falta do Procurador Geral, Mafan Vieira, chefe máximo do Ministério Público, fundamental para ouvir as denúncias;
9 - Poucos minutos antes da audiência, o deputado Átila Nunes, na presença de todos os deputados e das lideranças da nossa religião, trava o seguinte diálogo com a deputada Beatriz Santos da Igreja Universal:
Átila Nunes: " - Deputada, a senhora convocou todas as autoridades? "
Beatriz Santos: " - Sim, deputado, todas..."
Átila Nunes: " - Todas mesmo, deputada, inclusive o Procurador Geral do Ministério Público?" Beatriz Santos silenciou.
Átila Nunes voltou à carga e repetiu a pergunta: "- A senhora convocou o Procurador?"
E Beatriz confessou: "- Não...";
10 - Esvaziada pela Igreja Universal através de sua representante, deputada Beatriz Santos, a audiência pública foi marcada por discussões de segmentos que exigiam o cancelamento da audiência;
11 - Logo após o discurso do deputado Carlos Santana, o deputado Átila Nunes faz uso da palavra e comunica ao plenário que a deputada presidente da Comissão de Combate à Discriminação é da Igreja Universal;
12 - Com a ausência das autoridades, muitas pessoas se retiraram em protesto, enquanto outros deputados acusam discriminação da Rede Record, de propriedade da Igreja Universal, caracterizada por sucessivos ataques a outras religiões;
13 - Visivelmente irritada, a deputada encerra a audiência abruptamente, não permitindo que vários líderes e deputados fizessem uso da palavra;
14 - As pessoas estão deixando o plenário e ela pede uma reunião ali mesmo no canto do plenário, com o Subsecretário de Segurança, única autoridade presente;
15 - O deputado Átila Nunes e seu filho, Átila Nunes Neto se aproximam do Subsecretário para se despedirem;
16 - Neste momento, seguranças da deputada da Igreja Universal impedem de forma truculenta a aproximação dos dois, instalando-se um caos que exigiu a rápida atuação dos agentes de segurança da Alerj, já que seguranças particulares não podem agir nas dependências da Assembléia Legislativa;
17 - Os seguranças da deputada da Igreja Universal lançam ameaças á vida de Átila Nunes e Átila Nunes Neto. Um deles é identificado como policial militar requisitado e comissionado no gabinete da deputada Beatriz Santos;
18 - Os agentes detém o segurança da deputada e o identificam. É registrada a ocorrência, com a posterior comunicação ao Chefe do Estado Maior da PM denunciando o despreparo e o tom ameaçador vingativo do policial militar que faz a segurança da deputada que, segundo confissão dela, também é evangélico;
19 - É comunicado ao presidente da Alerj o acontecido, com testemunho de todos os funcionários da Alerj, exigindo-se providências.
Os desdobramentos de tudo que aconteceu no último dia 14 de abril exigem uma reflexão do quanto a Igreja Universal está atuando de forma truculenta, incluindo seguranças possivelmente armados, agora dentro do Poder Legislativo.
O enfrentamento contra as ameaças dessa gente não pode ficar restrita aos nossos irmãos Átila Nunes (pai e filho). É preciso que todos nós, que não somos parlamentares, reajamos e denunciemos essas arbitrariedades junto aos órgãos de imprensa. Essa deputada, cuja Igreja prega o ódio aos cultos afro-brasileiros e o ódio aos homosexuais, JAMAIS poderia ser presidente da Comissão de Combate à Discriminação da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro! Isso é uma afronta à democracia!
MARCUS LÚCIO DE OXOSSE - TVC RioA TV Comunitária do Rio de Janeiro

segunda-feira, 14 de abril de 2008

A vitória da emoção!

A derrota para o Flamengo na final da Taça Guanabara uniu ainda mais o time do Botafogo e, ao mesmo tempo, serviu de contraponto ao mercantilismo que tomou conta do futebol. Como é possível que atletas que passaram por vários times sejam capazes de chorar após uma derrota? Ridicularizados pela maioria da imprensa esportiva e pelos torcedores rivais, os jogadores botafoguenses renasceram das cinzas e deram, ontem, no Maracanã, um presente aos torcedores botafoguenses, derrotando seus rivais por incontestáveis 3 x 0. Mas na dinâmica do futebol não há tempo para comemorações. Quarta-feira, o time enfrenta a Portuguesa, em São Paulo, pela Copa do Brasil. E no domingo faz a final da Taça Rio contra o Fluminense. Mais uma vez, o favoritismo é do adversário. Será que o coração alvinegro vai prevalecer?

sexta-feira, 14 de março de 2008

Marinha libera arquivos sobre o Almirante Negro

Num país que se diz democrático, é incrível o obscurantismo que até pouco tempo cercava a trajetória de João Cândido Felisberto (o Almirante Negro) nos arquivos da Marinha. Reportagem de Marcelo Beraba, da Sucursal da Folha no Rio, joga um pouco de luz sobre esta história:

Marinha liberou, após 97 anos, documentos referentes ao marinheiro de 1ªclasse João Cândido Felisberto (1880-1969), o "almirante negro", líder da Revolta da Chibata, e ajudou a localizar sua ficha no Arquivo Nacional. Osdocumentos agora tornados públicos só haviam sido consultados por oficiais e historiadores da Marinha e usados para corroborar a versão oficial do episódio que acabou com os castigos corporais nos navios de guerra. A liberação é um fato novo. Durante todo este tempo, os pesquisadores e os filhos de João Cândido esbarraram em negativas da Marinha, que jamais aceitou a elevação dos revoltosos à condição de heróis. O próprio JoãoCândido nunca conseguiu ter acesso à documentação. Em depoimento no MIS do Rio em 1968, ele reclamou:
"... os [arquivos] da Marinha são negativos, João Cândido nunca existiu na Marinha". O documento mais importante é a ficha funcional. João Cândido entrou para a Marinha como grumete em 10 de dezembro de 1895, chegou a ser promovido a cabo, mas depois foi rebaixado. Nos 15 anos em que permaneceu na Armada, ele foi castigado em nove ocasiões com prisões que variaram de dois a quatro dias em celas solitárias "a pão e água" e duas vezes com o rebaixamento de cabo para marinheiro. Não há registro, na sua ficha de 24 páginas escritas à mão, de que tenha sido espancado, como era comum. Extinto em 1889, logo após a Proclamação daRepública, o castigo físico foi restabelecido pelo Governo Provisório no ano seguinte. A rebelião dos marinheiros em 22 de dezembro de 1910 já vinha sendo alimentada ao longo destes 20 anos, mas só foi deflagrada depois que o marinheiro Marcelino Rodrigues foi punido com 250 chibatadas. A ficha de João Cândido registra dez elogios e uma promoção a cabo (1903), revogada definitivamente em 1907. O último elogio por bom comportamento é de setembro, três meses antes de liderar a rebelião. João Cândido participou de dezenas de manobras em toda a costa brasileira, navegou pelos rios das bacias do Amazonas e do Prata e esteve duas vezes em longas viagens pela Europa.
*Historiadores*
O mérito da revelação dos documentos e da ficha funcional de João Cândido se deve a uma equipe de cinco historiadores da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) encabeçada por Marco Morel, 47. Contratado pelo Projeto Memória da Fundação do Banco do Brasil para fazer uma pesquisa sobre o líder da revolta, Morel conseguiu autorização de um dos dois filhos vivos de João Cândido, Adalberto, para ter acesso aos documentos. O pedido foi baseado na lei 11.111 de 2005, que normatiza a liberação de documentos oficiais. O trabalho de pesquisa para o Projeto Memória está sendo feito junto com Tânia Bessone, também professora da Uerj, e três doutorandos. Uma delas, Silvia Capanema, descobriu na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, outra preciosidade: uma série de 12 artigos de memórias assinados por João Cândido publicados em 1912 na "Gazeta deNotícias". Falta digitalizá-los. Há algumas coincidências nesta história. João Cândido viveu as décadas que se seguiram à expulsão da Marinha em desgraça. Nem as empresas comerciais de navegação lhe davam emprego. Foi redescoberto pelo jornalista Edmar Morel (1912-1989), autor do livro que passou a identificar a rebelião: "A Revolta da Chibata" (1959). Edmar foi encontrá-lo como carregador no antigo mercado de peixes da praça15, no centro do Rio. De lá via bem próxima a Ilha das Cobras, onde esteve preso, foi torturado e quase morreu. A ilha abriga hoje, entre outras seções da Marinha, o Serviço de Documentação. O historiador Marco Morel é neto de Edmar Morel. Também jornalista no início da vida profissional, dedicou-se ao ensino e à pesquisa histórica. Sua especialização é o Brasil do século 19, mas, por causa do avô, interessou-se por João Cândido. Ele doou o acervo de Edmar Morel à Biblioteca Nacional.

quarta-feira, 12 de março de 2008

A vida entre a cadeira elétrica e as células-tronco

Enquanto no Brasil se discute sobre a possibilidade de se utilizar células-tronco em pesquisas com o objetivo de se salvar vidas humanas, nos Estados Unidos - mais precisamente no Estado de Nebraska - foram proibidas recentemente as execuções na cadeira elétrica, mas não a pena de morte em si. Richard C. Dieter, diretor-executivo do Centro de Informação sobre a Pena de Morte (instituição acadêmica com sede em Washington que não tem posição definida sobre a pena capital, disse que essa decisão também pode influir diretamente em um caso hoje sob exame da Suprema Corte americana a respeito da constitucionalidade da injeção letal como método de execução. No dia 8 de fevereiro, o Supremo Tribunal de Justiça de Nebraska, único Estado que ainda mantinha a cadeira elétrica como método de execução, determinou que este procedimento é “cruel”. Os 10 condenados que aguardam no corredor da morte não poderão ser executados até que o Estado decida se adota outra forma de aplicação da pena de morte, pois a cadeira elétrica era até o momento em que a sentença foi proferida o único aplicado no Estado.
“A evidência mostra que o ato de eletrocutar causa intensa dor e atroz sofrimento”, escreveu o juiz William M. Connolly na sentença do tribunal de Nebraska, aprovado por maioria.
Em 2007, a Assembléia Legislativa de Nebraska rejeitou outro projeto que abolia a pena de morte por apenas um voto.
Por aqui, apesar da onda de corrupção que assola o país, ainda se discute a vida.

segunda-feira, 3 de março de 2008

Apenas um retrato na parede...

Simone olhou-se no espelho. Aos 35 anos era uma mulher espetacular, daquelas de parar o trânsito. Mas ela estava só, irremediavelmente só. Retocou o batom. Ajeitou a leg. Comprimiu os lábios e voltou a olhar-se no espelho. A roupa combinava. Os sapatos idem. Mas faltava alguma coisa, lembrou-se, pegando a bolsa sobre a cama. Conferiu se o celular estava carregado (ah! essas baterias!) e saiu. Já no corredor surgiu uma outra Simone. Esvoaçante, sorridente, envolvente mesmo. Olhou mais uma vez o relógio. Estava adiantada. (Não faz mal, disse pra si mesma) e prosseguiu chamando a atenção de motoristas, passantes, comerciantes, bancários e alquimistas. Não se conteve e soltou uma gargalhada quando um taxista brindou-a com um "poderosa"! Chegou ao destino, o mesmo barzinho de Laranjeiras onde conhecera Augusto. Conferiu novamente a hora: 19h30min. Estava adiantada, havia marcado às 20 horas. Ela pediu uma dose de Bacardi, depois outra, e outra e outra. Quem entrava, quem saía, o dono do bar (que já a conhecia) todos a olhavam, todos ansiavam por um sorriso, a correspondência aos seus anseios. O tempo passava e nada de Augusto. Até que lá pelas 21h30min o celular tocou. Era Augusto. "Não vou!" Ela não conseguiu responder. De forma automática levantou o braço pedindo a conta ao garçom. Passou o cartão. Levantou-se e saiu! Era mais uma noite quente no Rio. Ela chamou um táxi e voltou para casa. Não sem antes causar um alvoroço à porta do bar, onde todos procuravam o melhor ângulo para olhá-la e, quem sabe, roubar-lhe um olhar cúmplice. Ela não viu a paisagem no caminho até a Barra. Entrou no amplo apartamento que lhe coubera na partilha dos bens de sua separação de Augusto. Ela ainda o amava e tinha uma idéia fixa: matá-lo! Se não fosse seu, não seria de mais ninguém. Já perdera a conta dos inúmeros encontros marcados com Augusto. Ele faltara a todos. Ela só queria que ele comparecesse a um. Iria matá-lo e matar-se em seguida. Ela não se importara com a separação, não quis ficar com os filhos e garantiu uma pensão que lhe garantia o conforto. O que ela não perdoava é que Augusto a trocara por uma mulher de cintura roliça, cabelos curtos mal cuidados, feia mesmo! Despiu-se, olhou-se no espelho e, automaticamente, desviou o olhar para o retrato que mantinha na parede. Ela Augusto e o casal de filhos. Simone não perdoava Augusto porque a sua fortuna a cada dia aumentava e ele não se importou quando ela se envolveu com um policial, ou com um procurador da Justiça, nem quando posou nua para uma revista. Ele já não se importava! Olhando para si no espelho e para Augusto no retrato na parede, Simone compreendeu que odiava Augusto porque ele a tornara invisível.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Nem juiz escapa de policiais arbitrários

O juiz federal Roberto Schuman viveu na própria carne o arbítrio, a arrogância e o abuso de poder de policiais endeusados por uma certa mídia, que assimila como nornal a morte, em 2007, de mais de 1.200 jovens e adolescentes nas operações policiais violentas que se tornaram a marca da política de segurança do govermador Sérgio Cabral. Por Pedro Porfírio, jornal O Povo.Nestes tempos de "guerra urbana" estimulada pelo governador Sérgio Cabral, com o culto cego às "tropas de elite", o constrangimento vivido pelo juiz federal Roberto Schuman na noite de uma segunda-feira de carnaval, tendo como pano de fundo os arcos da Lapa, revela o retrato sem retoque de um ambiente onde está cada dia mais difícil ser cidadão.Os policiais da CORE, depois de quase o atropelarem, não gostaram do comentário que ele fez e decidiram algemá-lo, como se fosse um malandro, sem sequer pedir documentos, jogando-o na caçapa do camburão. Eles deram as tonalidades da impunidade, com comentários jocosos, mesmo depois que e o cidadão Roberto Schuman se identificou como juiz federal.O magistrado fez um relato completo do constrangimento que sofreu (que recebi na excelente mala direta do escritório Rocha Miranda Associados), destacando sua preocupação em relação aos cidadãos nas mãos desses aloprados "agentes da lei". Firme em sua disposição de cobrar uma punição exemplar dos autores da arbitrariedade, o juiz Roberto Schuman disponibilizou o depoimento que escreveu "para que isso nunca mais volte a correr, com quem quer que seja". Um ato de desagravo será realizado hoje (13/2), às cinco da tarde no auditório do foro da Justiça Federal da Av. Rio Branco, na Cinelândia, por iniciativa de sua entidade de classe.
Ao apresentar seu relato, o magistrado acrescentou o comentário: "Confesso que sai do camburão algemado me sentindo como um trapo, um lixo, em relação a minha cidadania e minha condição funcional, contudo, após esses dias, saio um cidadão e um magistrado ainda mais forte, e isso eu devo a todos vocês".Do que ele escreveu, que publico na íntegra, uma afirmação dos policiais do CORE me chamou mais a atenção, pois confirma as histórias que ouço nas comunidades pobres sobre as costumeiras práticas de extorsão dos policiais:"Diante da voz de prisão, estendo os dois braços para ser algemado. Pergunto ao mais novo dos três, que estava completamente alterado:- Qual o motivo da prisão?"Resposta: "Desacato". Pergunto novamente:- O que os senhores entendem como desacato?"Resposta: "Até a DP a gente inventa, se a gente te levar pra lá".Pelo que percebi, Roberto Schuman é um juiz jovem e simples. Como ia desfrutar de uma noite de carnaval, foi para a rua como qualquer cidadão. Foi, aliás, ao mesmo lugar, e na mesma noite, em que meu filho de 20 anos, que, decepcionado, largou a Faculdade de Direito no primeiro período, também optara por buscar ali, com seus colegas, viver um pouco do carnaval com o mínimo de tranqüilidade. Assim, posso dizer que ele, como muitos cidadãos, podia ter passado por um sufoco ainda maior.
O DEPOIMENTO DO JUIZ ROBERTO SCHUMAN"A história foi escrita por mim visando a publicação em jornais, até mesmo para se propor um debate serio sobre o atual estado de coisas, pois no mesmo jornal que noticiou um juiz federal algemado no camburão pela suposta prática de um delito de menor potencial ofensivo havia um bicheiro - réu em processo criminal - em cima de um caminhão oficial do corpo de bombeiros fluminense, logo, aparelho do Estado.
Ressalto que não tenho palavras para agradecer os vários telefonemas de apoio recebidos e mensagens de colegas e amigos de todas as carreiras do meio jurídico e de outras diversas, todos, resumidamente, com a seguinte preocupação: se aconteceu isso com um juiz, o que virá em seguida. E o cidadão comum? Bom, agradeço o apoio imediato da AJUFE, que no dia seguinte já estava ao meu lado, e, novamente, de todos os amigos. Segue abaixo a minha manifestação, que está livre para a mais ampla divulgação possível, bem como este email, para que isso nunca mais volte a correr, com quem quer que seja.Haverá uma sessão de desagravo provavelmente as 17:00 horas do próximo dia 13, quarta-feira, no auditório do foro da justiça federal da Av. Rio Branco, no centro do Rio de Janeiro. Por último, confesso que sai do camburão algemado me sentindo como um trapo, um lixo, em relação a minha cidadania e minha condicao funcional, contudo, após esses dias saio um cidadão e um magistrado ainda mais forte, e isso eu devo a todos vocês. Atenciosamente, Roberto SchumanSegue a carta:O Juiz, a Polícia e o Malandro.Segunda-feira de carnaval, saio de casa perto das 22:00 horas para encontrar a namorada na porta do Circo Voador, na Lapa. Lá chegando, saio do táxi falando ao celular para encontrá-la. Mas não é só. Além de tênis, bermuda e camisa, usava um chapéu, desses vendidos em todos os cantos da cidade a R$ 5,00. Presente da namorada. Coisa de mulher.Então, atravesso a rua e quase sou atropelado por um camburão com luzes e lanternas apagadas com a inscrição CORE no carro. No mesmo momento o motorista grita "Ô malandro" e eu, assustado, dou um pulo para a calçada, peço desculpas e viro as costas, continuando ao celular e andando, já na calçada. Ai, percebo que a viatura andava ao meu lado, com três policiais de preto, ao que escuto, em alto e bom som: "Saia da rua, seu malandro e bêbado". Nesse momento, pensei: Isto não é jeito de tratar as pessoas na rua e respondi: "Não sou bêbado nem malandro; se vocês não estiverem em operação, está errado andarem com essa viatura preta e apagada, pois quase me atropelaram e vão acabar atropelando alguém!"
Oportunidade em que os homens de preto descem da viatura dizendo: "Ô malandro, tu é abusado, tá preso". Ato contínuo, diante da voz de prisão, estendo os dois braços para ser algemado. Pergunto ao mais novo dos três, que estava completamente alterado: "Qual o motivo da prisão?" Resposta: "Desacato". Pergunto novamente: "O que os senhores entendem como desacato?" Resposta: "Até a DP a gente inventa, se a gente te levar pra lá".Neste exato momento, percebendo a gravidade da situação, disse: Estou me identificando como juiz federal e minha identificação funcional está dentro da minha carteira, no bolso da bermuda. Imediatamente o policial novinho, que se identificou como André e na DP disse se chamar Cristiano meteu a mão no meu bolso, pegou a minha carteira e a colocou em um dos bolsos de sua farda preta. Então o impensável aconteceu! Disseram: "Juiz Federal é o c..., tu é malandro e vai para a caçapa do camburão."Fui atirado na mala do camburão como bandido, algemado, porém, com o celular no bolso e os três policiais do CORE da Policia Civil do Estado do Rio de Janeiro, dizendo que no máximo eu deveria ser "juiz arbitral ou de futebol". Temendo pela vida, por incrível que pareça me veio aquela frase de Dante, da sua obra "Divina Comédia": "Abandonai toda a esperança, vóis que entrais aqui".Então, sem perder as esperanças, peguei o celular do bolso mesmo algemado e liguei para a assessoria de segurança da Justiça Federal informando a situação, bem baixinho, e que não sabia se seria levado para DP, pedindo para acionar a PM e localizar a viatura do CORE que estava circulando pela Lapa comigo jogado algemado na mala.Após a ligação, disse-lhes uma única coisa, ainda na viatura. "Vocês estão cometendo crime", ao que escutei dos três, aos risos: "juiz federal andando com esse chapéu igual a malandro. Até parece. Se você for mesmo juiz, a gente vai chamar a imprensa, pois juiz não pode andar como malandro."
Na delegacia, as gracinhas dos policiais continuaram: "Olha o chapéu do malandro". Então eu disse, já me sentindo em segurança: "Vocês querem que eu tire o chapéu e vista terno e gravata?"O fato é que já na presença do delegado as algemas foram retiradas e, vinte minutos depois, um dos policiais de preto vem ao meu encontro e me pede: "Excelência, desculpas, nós agimos mal, podemos deixar por isso mesmo?"Respondi: "Primeiro. Não me chame de Excelência, pois até há pouco vocês me chamavam de malandro. Segundo. Não, não pode ficar por isso mesmo. Como é que vocês tratam assim as pessoas na rua, como se fossem bandidos. Terceiro. Vocês três não honram a farda que estão vestindo. Quarto. Desde a abordagem policial agi apenas como cidadão, no que fui desrespeitado e, depois de ter me identificado como juiz federal, fui mais ainda, logo, um crime de abuso de autoridade seguido de outro de desacato."Depois do circo montado pelo próprio agente do CORE Cristiano, que ligara do interior da DP para os repórteres, de forma incessante, talvez temendo que ele e seus dois colegas de farda preta fossem presos por mim no interior da DP, decidi não fazê-lo porque em nada prejudica a instauração de procedimento administrativo na Corregedoria da Policia Civil, bem como a ação penal por abuso de autoridade e desacato, sendo desnecessário mencionar o dano à minha pessoa, como cidadão e magistrado.Pensei, por fim: "Se como juiz federal fui ameaçado por três homens de fardas pretas com pistolas automáticas, algemado e jogado como um bandido na mala de um camburão, simplesmente por tê-los repreendido, de forma educada, como convém a qualquer pessoa de bem, o que aconteceria a um cidadão desprovido de autoridade e de conhecimento dos seus direitos?"Duas coisas são certas, de minha parte: Não permitirei nada "passar" em branco, pois são fatos sérios e graves que partiram daqueles que têm o dever de zelar pela segurança da sociedade e, no próximo carnaval, não usarei o presente da namorada, o tal "chapéu". É perigoso. Pode ser coisa de malandro.
Roberto Schuman - Cidadão e Juiz Federal no Estado do Rio de Janeiro"

O guardião do espaço...

O guardião do espaço...
No meu local de trabalho num dos raros momentos de calmaria. O clik é do companheiro Claudionor Santana

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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Jornalista e escritor, com passagens por jornais como Última Hora, Jornal do Commercio, O Dia e O Globo, atualmente sou Assessor de Comunicação do Sintergia (Sindicato que representa os trabalhadores do Setor Elétrico do Rio de Janeiro).